O que eu fiz, o que eu faço.

Redação, conteúdo, reportagem, assessoria de imprensa, roteiro, rádio, impresso, cinema, tv, foto, produção de eventos e espetáculos.

Obras de arte urbana nos viadutos de Porto Alegre

Os motoristas mais atentos certamente vão notar uma diferença nos viadutos da rua Vasco da Gama e avenida João Pessoa, em Porto Alegre. O que antes era só concreto recebeu atenção de dois artistas plásticos gaúchos, Zoé Dagani e Mauro Fuke, que transformaram os espaços em verdadeiras obras de arte.

A intervenção “Céu”, de Zoé Dagani, a primeira a ser concluída, foi instalada no viaduto Imperatriz Leopoldina, na Avenida João Pessoa. O projeto foi selecionado em 2002 no concurso “Espaço Urbano, Espaço Arte”, iniciativa da prefeitura que tem o objetivo de colocar obras de arte contemporânea ao alcance da população.

Para a sua intervenção, Zoé buscou inspiração nas pessoas que transitam pelo espaço, dos motoristas aos moradores de rua. A obra foi feita com material cerâmico aplicado nos quatro pilares centrais do viaduto para criar uma ilusão de ótica. Quem passa pelo espaço vê o céu e as nuvens, dando uma perspectiva ilimitada sob o viaduto. “A parede de concreto foi revestida com um pouco de aconchego. Porque ninguém mais olha para o céu. Então o céu descerá para ser visto e sentido”, explica a artista e cenógrafa.

Outra obra de arte urbana é a reconstrução de “Iluminuras”, de Mauro Fuke, nos muros do viaduto Ildo Meneghetti da rua Vasco da Gama. O projeto de Fuke também foi selecionado no concurso “Espaço Urbano, Espaço Arte”, realizado pela prefeitura em 2000 e logo depois concretizado. No entanto, a obra precisou ser completamente retirada em abril de 2007 em função de má-aplicação dos azulejos que a compunham. Infiltrações criaram grandes bolhas de ar sob os azulejos, que ameaçavam cair sobre os pedestres. O artista refez alguns detalhes do projeto, que manterá o mesmo aspecto original. O trabalho está em andamento e deve ser concluído em 70 dias.

De acordo com a coordenadora de Artes Plásticas da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), Ana Pettini, até o final de 2009 será feito um levantamento das obras que necessitam de reparos e iluminação. “Esse projeto qualifica o olhar e o convívio da população com as artes plásticas. Se a prefeitura mostrar que está preservando essas obras, a comunidade também se sentirá responsável em fazer o mesmo”, concluí.

21 de outubro, 2009
Site PortoWeb

O refúgio de Otávio Segala

O cantor, violonista e compositor Otavio Segala, 44 anos, é santa-mariense e iniciou seus estudos de violão nos anos 80. Deixou a cidade no início da década de 90 para seguir carreira. E, literalmente, colocou o pé na estrada. Morou no Japão e na Alemanha. De volta ao Brasil, passou por Rio e São Paulo, mas se estabeleceu em Porto Alegre, onde lançou seu primeiro CD, Bossa do Samba (2003). Agora, Segala apresenta seu segundo álbum, Mokambo, onde aprimora as idéias do trabalho de estréia mas com o refinamento e apuro técnico conquistado em quase três décadas de trajetória em palcos, festivais e estúdios. Em entrevista ao PortoWeb, o músico fala do inicio da carreia, das experiências fora do país e do seu novo CD Mokambo.

PortoWeb – Quando você descobriu a vocação para a música e como ela entrou na sua vida?
Começou onde deveria ter começado, na escola quando eu tinha 14 anos. No final do expediente havia uma aula de música, onde meu professor ensinava Beatles. Eu ficava fascinado, me concentrava e chegava a sentir o cheiro do violão, sempre imaginando e nutrindo a vontade de fazer o mesmo que meu professor. Na mesma época conheci um amigo das missões, que era músico, exatamente no momento que “estourou” o nativismo. Eu fiquei mais impressionado e comecei a estudar música.

PW – E quando você começou a tocar profissionalmente?
Nessa fase mesmo, em 1985, fazendo shows em bares e pizzarias de Santa Maria. Tentei entrar em alguns festivais de música nativista, mas não fui bem aceito. Foi quando conheci o som de outros artistas como Vitor Ramil e Lô Borges, que influenciaram meu trabalho como compositor. Então, participei de festivais de música urbana no interior. Mesmo assim, eu tocava pra ninguém ouvir, pois era uma época de muito nativismo.

PW – Precisou mudar de estilo?
Quando eu conheci a música de Ivan Lins e Victor Martins, levei um choque e isso influenciou diretamente no meu trabalho. Na época, a RBS transmitia o programa Sul Encanto, e eu fui convidado para representar Santa Maria em uma edição. Mas minha música foi criticada por parecer mais MPB do que nativismo. Nesse momento tive a certeza qual caminha deveria seguir.

PW – Quando você decidiu vir para a capital?
Eu comecei a vir remotamente a Porto Alegre para participar de festivais e fazer shows. Em 1991, depois de casado decidi tentar a vida aqui, pois isso ajudaria a alavancar minha carreira. Acho que devemos ir sempre para os grandes centros e buscar novas formas de expressar a nossa arte.

PW- Como foi esse começo em Porto Alegre?
Infelizmente, as dificuldades só aumentaram, pois a concorrência é maior. Além disso, as pessoas queriam ouvir rock, o que também não é meu estilo. Então comecei a fazer covers em pubs e bares. Só fui tocar as minhas composições no final de 1995, no Japão.

PW – Conte um pouco sobre essa experiência no Japão.
Um amigo meu foi para o Rio de Janeiro e tinha contatos com pessoas no Japão. Quando surgiu a oportunidade de ir embora ele me chamou para trabalhar em outra área. Como eu estava bastante desiludido com a música aqui, achei que era uma oportunidade de conhecer outro mundo e ganhar dinheiro. Além disso, sempre soube que lá é um lugar onde a música brasileira é muito valorizada. Um dia, em um restaurante, meu amigo comentou com a dona que eu tocava violão. Ela pediu que eu mostrasse um pouco da música e imediatamente fui convidado a tocar na casa. Trabalhei muito fazendo shows onde só tocava MPB e artistas brasileiros.

PW – E como é o público de lá?
São muito receptivos, há muita procura pela MPB. A facilidade e criatividade do brasileiro impressionam os japoneses.

PW – E o retorno a Porto Alegre?
Foi muito complicado, tentei fazer shows, mas as pessoas não entenderam minha proposta. Percebi que continuava difícil fazer esse tipo de música aqui. O espaço é restrito e recomeçar foi muito árduo. Por sorte fui convidado para trabalhar na Alemanha, onde fiz alguns shows e confirmei tudo que eu pensava sobre meu trabalho. Passei pelo Rio de Janeiro, mas por falta de recursos para produzir retornei ao Rio Grande do Sul. Continuei fazendo shows e consegui gravar meu primeiro CD “Bossa do Samba”. Fazer música em qualquer lugar é difícil, mas fazer MPB aqui, onde o nativismo e o rock são mais valorizados, é mais complicado ainda. É preciso além da boa música, uma produção bem estruturada. Acho que fazer MPB em Porto Alegre é uma inovação.

PW- Você está lançando o novo CD Mokambo, que é um projeto financiado pelo Fundo Municipal de Apoio à Atividade Artística e Cultural (Fumproarte) Como surgiu a idéia de buscar esse tipo de apoio para gravar o material?
Acho que esse é o caminho mais razoável para poder gravar. Na verdade, esse é meu segundo CD feito com recursos do Fumproarte. Agora, pretendo buscar outros incentivos para os projetos. Confesso que ainda tenho medo de trabalhar com gravadoras e de ser podado de novo. Há alguns anos atrás enviei diversas músicas e não recebi nenhuma resposta. Eu nunca tive a oportunidade de uma gravadora chegar e querer distribuir o meu trabalho. Decidi não ser mais refém desse mercado.

PW – Como será o trabalho de distribuição do CD ?
Ele estará disponível em algumas livrarias de Porto Alegre, como a Palavraria, Bamboletras e Guion. Além disso, o público encontrará o CD à venda nos shows.

PW – Fale um pouco sobre esse trabalho e do show.
São músicas com influências de ritmos de várias regiões do Brasil. É um projeto de Música Popular Brasileira onde conto com várias participações de compositores como Clóvis Itaquy, Marcelo Canellas, Alexandre Florez e Angelise Fagundes. Além disso, tem a participação de Mariana Leporage, Alexandro Kramer e de Berbel com técnica inédita de percussão com o instrumento chamado Cajón. Berbel, inclusive, participa dos shows do Mokambo criando uma atmosfera e uma conjunção de talentos e estilos diferentes.

15 de outubro, 2008

Site PortoWeb

Rádio na Internet

Conheça a Rádio Vila do Rock e saiba como funciona uma rádio Web no Brasil

A convergência das mídias com o advento da Internet propiciou novas possibilidades para o uso do rádio. Não se trata simplesmente de uma mudança de meio de transmissão do rádio convencional. Adaptações, novas tecnologias e possibilidades multimídia modificaram o conceito convencional e permitem mais possibilidades de escolha ao público. Boa parte do crescimento do rádio pela Internet se deve a dois fatores: à popularização da banda larga, fenômeno que vem acontecendo há mais de uma década, e ao lançamento de aparelhos portáteis que reproduzem rádio Web sem a necessidade de um computador, através de um dispositivel móvel com software compatível ao formato disponibilizado nos sites.

Para conhecer como funciona uma rádio web no Brasil, o Porto Web entrevistou Clovis Tavares, engenheiro de sistemas e criador da Rádio Web Vila do Rock. Tavares, que trabalha com desenvolvimento em tecnologias voltadas para Web, lançou a rádio em 2005 com intuito de suprir a falta de divulgação do estilo Rock Progressivo. Atualmente, o site disponibiliza programação ao vivo e contabiliza cerca de 690 acessos diários. As comparações entre rádio tradicional e o modelo Web, a inexistência de um modelo de negócios testado e eficiente e os passos para criação da rádio na Internet são temas abordados na entrevista.

Porto Web – Como e há quanto tempo surgiu a idéia de construir a rádio na Web?
Minha ligação com a mídia iniciou em 1974, quando era ouvinte da Eldorado FM, conhecida como Eldopop, no Rio de Janeiro. Na época, era uma rádio moderna que executava bandas como Kraftwerk, totalmente à frente do seu tempo. Em 1978, a Eldopop FM mudou o enfoque de sua programação e anunciou a 98 FM, voltada para a Disc Music. Tudo estava acabado! Até 2005, nutri a esperança de que um dia uma rádio no estilo Eldopop voltaria ao ar. Eu me sentia decepcionado com a falta de uma rádio convencional no Rio de Janeiro com a programação voltada para o Rock Progressivo. Foi então que resolvi criar uma rádio Web chamada “Eldopop”.

PW – Quais foram as etapas de criação da rádio?
Primeiro procurei montar equipe de trabalho. Passamos para estudo e desenvolvimento da tecnologia streaming de transmissão (ao vivo). A próxima etapa foi a criação de servidor próprio de Internet voltado para a transmissão. Depois, criação da página, captação de patrocinadores, montagem do acervo da rádio e, por fim, divulgação. Hoje, já estamos aptos a prestar consultoria, suporte e transmissão streaming para outras rádios.

PW – Porque o projeto se tornou Rádio Vila do Rock?
A estréia em 2005 foi um sucesso e deixou toda uma geração de amantes do Rock Progressivo em polvorosa. Mas tivemos muitas dificuldades em manter a rádio no ar. Não tínhamos patrocinadores e quanto maior o número de ouvintes maiores eram os custos. Alguns amigos ajudaram nas despesas, mas eu sabia que não era possível continuar daquele jeito. Então, o domínio foi vendido e permanece inativo. Em 2008, resolvi recolocar a rádio no ar, mas como o domínio Eldopop não era mais meu, escolhi o nome “Vila do Rock”.

PW – Como você tornou o projeto viável?
O primeiro passo foi criar um servidor próprio de transmissão streaming, que é a tecnologia utilizada pela rádio Vila do Rock. Depender de servidores terceirizados, no passado, foi uma dor de cabeça. Eles faziam manutenção no servidor quando queriam e, sem consulta, tiravam a rádio do ar quando bem entendiam. Além disso, o serviço era muito caro. Com a criação de um servidor próprio este problema foi sanado. Outra idéia foi colocar a rádio no ar com dois patrocinadores no projeto.

PW – Há algum tipo de regulamentação para colocar a rádio no ar?
Hoje não existe nenhuma concessão para uma rádio Web estar no ar. Mas acredito que daqui há uns três anos alguma coisa comece a ser desenhada para fiscalização e controle de excessos.

PW – Quais são as principais diferenças da rádio Web para a tradicional?
Acredito que a grande diferença entre uma rádio convencional e uma Web é a impossibilidade de ouvir no rádio do seu carro. Para ouvir a rádio Web é necessário um computador. Mas a vantagem da rádio Web é que uma grande maioria da nossa audiência está no trabalho ouvindo a programação em seu computador.

PW – Quais as vantagens de manter uma rádio na Web?
Para colocar uma rádio convencional no ar é preciso conseguir uma concessão para a mesma. Os custos são altíssimos e com uma FM você atinge somente o público de sua cidade. Uma FM de âmbito Nacional é um investimento imenso! Totalmente fora da realidade. Com a Rádio Web você atinge o mundo inteiro. Claro que para fazer a transmissão ao vivo os custos são altos. Mas esse é um problema resolvido com a criação de servidor próprio.

PW- É possível ter rentabilidade financeira com a rádio?
Não, no momento. Mas acredito que até o final do ano vamos resgatar o investimento. Com a criação de programas e o trabalho de locutores irreverentes, o número de ouvintes tende a aumentar e, conseqüentemente, o de patrocinadores também.

PW – Quantas pessoas trabalham na equipe da Rádio Vila do Rock?
Hoje são cinco integrantes. Três analistas de sistemas, um Webdesign, e um locutor que vai estrear na programação.

PW – Como é a reposição de conteúdos do site?
A playlist é atualizada diariamente. Estamos trabalhando para desenvolver outras seções do site com atualizações diárias de shows, lançamentos, discografia, etc.

PW – O que lhe motivou a criar a rádio com esse tipo de programação especifica?
No Brasil, existem bandas progressivas que são muito respeitadas e conceituadas no exterior. Entrentanto, poucos veículos de mídia convencional divulgam esses grupos. Ouvindo a nossa rádio, é possível conhecer esses trabalhos.

PW – Qual é o público que acompanha a programação?
Hoje a maior parte dos ouvintes está acima dos 40 anos. Mas isto vem mudando muito. Com este público maduro e fã do gênero há muitos anos, a rádio virou um instrumento para apresentar o Rock Progressivo, Neo, Hard, Eletrônico a outras gerações. E assim, vamos atingindo uma audiência mais jovem, de menor faixa etária.

PW – Quanto às músicas, existe algum tipo de liberação para executá-las?
O trabalho das bandas nacionais é divulgado com autorização dos mesmos. Quanto as músicas de bandas internacionais não existe nenhuma liberação. Como a utilização de transmissão streaming não permite a cópia ou download do trabalho, não tivemos problemas até hoje. Estamos divulgando um gênero que não tem muito espaço no Brasil.

PW – Quais seus planos para o futuro na rede?
Muita pesquisa e investimento na busca de aperfeiçoamento e novas tecnologias. Meu sonho é ver a rádio transmitir a música, e no próprio player no computador do ouvinte, exibir a imagem da capa do álbum e informações da banda. Tudo simultâneo! Buscar meios e tecnologias para levar a programação da rádio para portáteis. Como acontece com os radinhos de pilha, nas rádios convencionais. Quando isso for realidade, será possível atender todo o planeta sem a necessidade de prender o ouvinte na frente de um computador.

Música eletrônica para ler

Eloy F. Fritsch é um dos pioneiros da Música Computacional e Eletrônica, no sul do Brasil. Compositor e tecladista da banda de rock progressivo Apocalypse, já lançou CDs na Europa e lotou concertos de rock progressivo com a banda. Além disso, é professor do Programa de Pós-graduação em Música e dos cursos de extensão em Música Eletrônica da UFRGS, onde é responsável por um projeto pioneiro no Rio Grande do Sul: o Centro de Música Eletrônica (CME) do Instituto de Artes (IA) da Universidade Federal gaúcha. Atua também como coordenador do grupo de pesquisa em Computação Musical e da Comissão de Pesquisa do IA. Eloy é colunista da revista paulista Teclado & Piano e do site PW Tambor.

Mas engana-se quem pensar que não sobra tempo para mais nada. Em paralelo, o músico desenvolve um projeto de composição com sintetizadores, computadores e teclados eletrônicos, possuindo oito álbuns instrumentais solo, além de participações em várias coletâneas internacionais. Em agosto, Eloy Fritsch lançou o livro “Música Eletrônica, Uma Introdução Ilustrada”, onde apresenta assuntos que abrangem diversos tópicos relacionados à síntese sonora, estética, história, compositores, obras, instrumentos eletrônicos e técnica de composição.

Nesta entrevista exclusiva ao PortoWeb, Fritsch conversa sobre sua carreira, conta um pouco da história da criação do CME e, é claro, comenta o recém publicado livro de sua autoria.

PW – Fale um pouco da sua trajetória, da atuação como tecladista até o cargo de professor e diretor do Centro de Música Eletrônica (CME) da UFRGS.
Eloy
– Sempre tive contato com música em função do trabalho do meu pai na Rádio Caxias. Como ele foi um dos fundadores da rádio, tínhamos em casa muitos equipamentos eletrônicos. Isso contribuiu para que eu criasse uma afinidade com a música eletrônica. Aos 13 anos comecei a trabalhar na rádio. Nos horários livres costumava freqüentar a “discoteca”, uma grande sala com discos de vinil, muitos deles de música eletrônica e de sonoridade específica criada por sintetizadores. Quando comecei a tocar, aos 15 anos, formei o grupo Apocalypse. Em seguida, comprei meu primeiro sintetizador e comecei a pesquisar. Estudei computação em Caxias do Sul e, em 1992, mudei para Porto Alegre dando seqüência aos meus estudos com o mestrado. Foi nessa época que iniciei os trabalhos com “Computer Music”. Mas só quando ingressei no doutorado, pude dedicar tempo para a composição. Também dei aula em universidades e estudei violoncelo e violão. Quando vim para UFRGS, fiz curso de extensão em piano. Na época, sob orientação da professora Rosa Vicari, criamos o primeiro Laboratório de Computação e Música (LCM) do sul do Brasil, desenvolvendo softwares para criação musical. Em 1999, passei no concurso para professor de composição e entrei no Instituto de Artes da UFRGS.

PW – E assim nasceu o CME…
Eloy – Nos anos 80, no Brasil, era complicado desenvolver esse trabalho. Pela universidade já haviam passado os pesquisadores Frederico Richter e Eduardo Reck Miranda, e eu, muito antes de entrar na UFRGS, tinha uma grande motivação para trabalhar com sintetizadores. Quando cheguei na universidade, trouxe todo meu equipamento de estúdio para iniciar os primeiros cursos e começar as aulas na graduação. Essa entrega como pesquisador e músico foi um passo importante para o Centro acontecer. Encaminhamos projetos de pesquisa para órgãos de fomento como CNPq, FAPERGS e MEC. Fomos contemplados para criar os estúdios e a orquestra de alto falante para projeção de composições com computadores.

PW – O que é ensinado hoje no Centro de Música Eletrônica?
Eloy
– A principal atividade de ensino é voltada à composição de música eletroacústica, ou seja, à criação de música eletrônica erudita. Entretanto, o CME atende a todos os cursos de música, principalmente nas disciplinas de música e tecnologia. Os cursos de extensão também são voltados à composição de música eletrônica, utilizando-se o computador e linguagens de programação para síntese e processamento de som.

PW – Como você avalia o cenário nacional da produção de música eletrônica?
Eloy
– Primeiramente, precisamos explicar alguns conceitos. O termo “música eletrônica” não é muito apropriado para o que se ouve hoje em raves e festivais. Estas são músicas instrumentais criadas por meios eletrônicos. Já a música eletrônica propriamente dita vem da década de 50, quando a montagem e a mixagem eram feitas por fitas. Com o desenvolvimento tecnológico, passou-se então a usar o computador.  Eletronic Music Art é o estilo que mistura o eletrônico com erudito. Já a música comercial surge da união da composição eletroacústica com a dance music, misturado com o que o kraftwerk fazia, que é o tecnopop. Tudo isso foi evoluindo para essas várias subdivisões que criam até uma certa dificuldade em entender o que trance e o que é house, por exemplo. Essa é uma questão difícil de comentar, pois muitos DJs se consideram músicos por mixar e compor trilhas. Mas aí entraríamos numa outra discussão, a do conceito de músico hoje em dia.

PW – Você acredita que aos poucos, os home-studios poderão tirar o mercado das gravadoras?
Eloy
– Sim, eles já tomaram grande parte do mercado de gravação e produção. Entretanto, o mercado está carente de bons profissionais para gravação e a mixagem continua.

PW – Sabemos que seus discos são totalmente produzidos no computador, sem nenhuma etapa “analógica”. Que softwares e equipamentos você utiliza?
Eloy
– No meu projeto de composição de música instrumental com sintetizadores, eu utilizo o software Pro Tools para gravação, edição e processamento de áudio. No projeto de música eletroacústica utilizo, além do Pro Tools, o Steinberg Nuendo e o Max/MSP. Este último é um software de programação de sintetizadores, que ensinamos aqui no CME. Já o DVD 5.1 que acompanha meu livro é uma compilação deste repertório criado por computador que apresentei em festivais e eventos na UFRGS, nos últimos anos.

PW – Quais as diferenças entre a música da banda Apocalypse e seu trabalho autoral?
Eloy
– Na banda trabalhamos com música mais popular, muitas vezes intercalando refrões com som instrumental. Está direcionada ao estilo do rock progressivo, que hoje chamamos de prog rock. Já o meu trabalho solo traz o instrumental com sintetizadores e auxílio dos computadores. Eu diria que é um trabalho mais de tecladista e compositor instrumental. Por fim, tenho outro trabalho na linha de música eletroacústica, que é a música erudita eletrônica, decorrente de uma modalidade de composição que vem dos anos 50, como mencionei antes.

PW – Agora vamos comentar um pouco do seu livro. Quais os tópicos que você aborda e quais os diferenciais em relação a outras publicações já lançadas sobre o assunto?
Eloy
– O livro apresenta temas relacionados à música eletroacústica, como a síntese sonora, tecnologias, estética, história, compositores, obras musicais, instrumentos eletrônicos, técnica de composição, discografia e aplicações da linguagem Max/MSP na composição musical. A maioria dos assuntos tratados são introdutórios e se destinam à estudantes, músicos, compositores e iniciantes no assunto. O livro também é rico em imagens, esquemas e exemplos de programas para facilitar a compreensão das idéias. Em relação às demais obras já publicadas no Brasil, entendo que esse livro abrange tanto assuntos musicais e estéticos quanto os técnicos. Em um único volume é possível tomar contato com vários tópicos sobre música eletrônica e ouvir, através do DVD, a Electronic Music Art feita no Rio Grande do Sul. O diferencial é exatamente a forma como o assunto é tratado. Por exemplo, não falo das diferenças e das particularidades em cada uma das várias denominações surgidas, recentemente, tais como, ambiental, minimalista, new age, trance, house ou techno. Preferi abordar os aspectos técnicos, históricos e estéticos para fundamentar e explicar a música eletrônica e eletroacústica. Utilizo o termo “música eletrônica”, que é muito comum na atualidade, porém propositadamente de forma incorreta, com o intuito de atrair os interessados no assunto para que leiam o livro e descubram novos horizontes e novas possibilidades para a criação musical artística.

Outubro, 2008
Site PortoWeb

Entrevista: Fernando Mattos, chefe do Departamento de Música da UFRGS

Fernando Lewis de Mattos, gaúcho de Porto Alegre, iniciou seus estudos como instrumentista muito jovem, aos 14 anos. Bacharel em música pela UFRGS, concluiu o mestrado em 1997 e, em seguida, iniciou sua tese de doutorado, realizando pesquisas sobre a estética da música na Universidade de Paris – Sorbonne, na França.

Em suas composições, constam obras para diversas formações, tais como peças para instrumento solista, música de câmara, canções, música coral, música orquestral, peças didáticas, transcrições e arranjos vocais e instrumentais. Além disso, acumula experiência como instrumentista do conjunto de Câmara de Porto Alegre, com estudos sobre música profana e renascentista, música eletroacústica e composições para teatro, cinema e exposições. Suas obras têm sido apresentadas no Brasil e no exterior, e registradas em diversos CDs, alguns dos quais receberam importantes prêmios regionais, como o Açorianos, em 2004.

Mattos lecionou no Projeto Prelúdio-UFRGS, entre 1987 e 1998, e integra a equipe de professores do Departamento de Música da mesma Universidade, onde atua como professor das disciplinas Fundamentos da Música, Harmonia, Análise Musical, Estética da Música, Música de Câmara e Arranjos Vocais. Como instrumentista, acompanha ao violão a cantora Deisi Coccaro, em recitais realizados em diferentes cidades do RS. O músico também se dedica à produção de artigos para periódicos especializados em música e estética. Em março desse ano, assumiu o cargo de chefe do Departamento de Música da UFRGS, e recebeu a terceira indicação ao Prêmio Açorianos, pelo trabalho no CD Convergências, de Rodrigo Andrada Silveira. Em entrevista ao PortoWeb, Mattos fala sobre a sua trajetória, especializações e trabalhos desenvolvidos.

PORTOWEB – Quando surgiu o interesse pela música?
Desde muito pequeno, mais ou menos com quatro anos eu já tinha uma ligação espontânea com a música. Lembro que na época havia uma tenda perto de casa e a dona me pedia pra cantar em troca de balas. Depois, já com oito anos, fui incentivado por um primo da minha mãe que tocava em bandas e tinha toda aparelhagem em casa. Mas meu primeiro instrumento foi uma harpa bem pequena para criança. Só depois comprei um violão e comecei a ter aulas com um professor. Ele notou que eu tinha muito interesse e já entendia de harmonia, então sugeriu que eu aprendesse a ler música.

PW – O que você ouvia na época?
Eu gostava de ouvir a rádio da universidade. As músicas mais estranhas eram as que me chamavam a atenção. Lembro que uma vez ouvi uma serenata de Arnold Schoenberg e, em seguida, decidi procurar mais sobre o autor na discoteca pública. Passei uma tarde ouvindo Schoenberg e lendo sobre sua obra e composição.

PW – E assim surgiu o interesse por composição?
O interesse é de antes ainda, desde muito cedo. Mas a certeza veio na época de prestar o vestibular.

PW – Mas a sua formação é bacharelado em violão?
Sim! É que para prestar vestibular para composição, era preciso fazer uma prova de piano e eu não tinha o instrumento e nem interesse. Então, precisei fazer bacharelado em violão. Mas isso foi ótimo para minha formação como instrumentista.

PW – Na época da graduação você já trabalhava como músico?
Sim, mas geralmente o violonista não vive só de tocar. A atividade principal geralmente é dar aulas. Eu sempre gostei muito, pois desde o começo pensava na maneira que eu poderia ensinar.

PW – Então você sempre teve a vocação para dar aulas?
Sempre. E depois da graduação continuei ensinando. Em um certo momento percebi a necessidade de me aperfeiçoar mais tecnicamente. Então, iniciei o mestrado.

PW – Em que área foi desenvolvida a tua especialização?
Na época optei pela educação musical. Mas no período de escrever a dissertação, mudei para o campo da musicologia e comecei a pesquisar o musicólogo Luis Cosme. No doutorado, continuei os estudos nessa área de composição, mas voltei para a musicologia, fazendo análise a partir da composição.

PW – Você finalizou o doutorado na França. Conte um pouco sobre essa experiência.
No doutorado analisei a obra completa de Luis Cosme, tanto a parte literária quando a musical. Como a tese foi voltada para a investigação de aspectos estéticos e estilísticos, fui aprofundar os estudos na Sorbonne, Universidade de Paris, no núcleo de estética. Lá, participei de um grupo de pesquisa e teoria aplicada, onde participavam artistas, pensadores, filósofos e teóricos interessados em teorias sobre a arte. Além de trabalhar o pensamento no sentido da estética filosófica, umas das coisas mais interessantes foi o contato com outras áreas, como teatro e artes visuais.

PW – Quando surgiu o interesse pela parte estética da música? Fale um pouco sobre esse campo de estudo.
Meu interesse sempre esteve ligado à vontade de entender a música no sentido mais amplo. Ou seja, quais eram as intenções do compositor ao criar e o que gira em torno disso. É um estudo de referências que varia de autor e época da composição. Quando estudamos a estética temos que necessariamente entrar no campo da sociologia, filosofia, critica, teoria da arte, antropologia e até da psicologia.

PW – Conte um pouco sobre a experiência em trilhas para teatro, cinema e exposições.
Desde a época em que eu estudava na UFRGS, era muito comum a integração entre os departamentos de artes visuais, teatro e música, e eu sempre participei. Com o tempo, surgiram convites para realizar trabalhos profissionais.  No cinema, colaborei como instrumentista na trilha sonora do filme Anahy de las Misiones (1997) e como compositor e diretor musical do filme Concerto Campestre (2004). No teatro, trabalhei com o grupo Porto de Figuras na trilha para a peça Eros (1995), e mais recentemente na composição musical para a série de saraus Quintanares, com direção de Sandra Dani e cenografia de Élcio Rossini. Também tenho parceria com a soprano Deisi Coccaro e algumas experiências com produção de material sonoro para exposições.

PW – Como é o processo de composição nesses trabalhos mais específicos?
Depende. Para o teatro, por exemplo, já fiz trilhas para um espetáculo inteiro, e os sons dramatizavam praticamente todas as cenas que seguiam os movimentos dos personagens. Eu assistia aos ensaios e criava as músicas depois. Muitas vezes, a trilha ficava maior do que o tempo necessário, e o grupo chegava a rever a cena. Já para o cinema, geralmente, o tempo é pré-determinado no roteiro. De forma que é preciso compor exatamente no tempo adequado. Você assiste a cena, marca o tempo e, então, cria.

PW – Como você vê a distinção entre os gêneros erudito e popular?
Isso tem muito mais a ver com uma estratificação social do que exatamente com a música e seu sentido artístico. Na era do rádio ouve essa separação dos estilos: a música popular seria feita para a massa, e a erudita, ligada às tradições mais antigas, resultaria de uma pesquisa mais aprofundada.  Mas na prática o conceito se mistura. Hoje, temos muitos compositores populares que tocam música erudita e existem grupos e músicos que tentam romper essa barreira, fazendo uma mistura de sons e estilos.

PW – E o cenário em Porto Alegre?
Felizmente o cenário é muito bom. Temos a Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro, a Ospa, a Osquestra do Sesi, a da Unisinos, a Orquestra de Câmara da Ulbra e a Orquestra da PUCRS. Esse saldo significa que existe campo para músicos que se interessam pelo estilo. Também temos algumas escolas de formação importantes aqui no RS, como a da Universidade Federal de Pelotas, a UFRGS e a UERGS, em Montenegro, além de outras várias escolas para formação musical.

Abril, 2009
Site PortoWeb

Caminho do Livro é atração em Porto Alegre

Já conhecida pelos amantes da literatura como a Rua dos Livros, a Riachuelo, no Centro da Capital, convida os porto-alegrenses a desfrutar periodicamente o que ela tem de melhor: a leitura. Trata-se do “Caminho do Livro”, um projeto da Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL) em parceria com a Prefeitura Municipal de Porto Alegre (PMPA).

A iniciativa, iniciada no último dia 09 de agosto, é inspirada nos eventos realizados entre os anos 1988 e 1989, quando, motivados pela crise econômica, os livreiros buscavam uma maneira de vender mais. Desde aquela época, a rua Riachuelo é considerada como uma das melhores opções para a busca de livros, diante da grande concentração de sebos e livrarias.

Agora, a feira ocorrerá todos sábados, das 10h às 16h, no trecho entre a ruas General Câmara e a avenida Borges de Medeiros. Mas a grande atração ainda é a diversidade. Na quadra que abriga 15 livrarias, pode-se encontrar de tudo. De saldos por R$ 1,00 a raridades que ultrapassam os três dígitos.

O ecletismo do espaço garante a satisfação dos vários perfis de leitores, inclusive os ainda bem pequenos. Na inauguração, enquanto muitos se divertiam com a apresentação do grupo Vira Teatro, a atenção de João Francisco, 4 anos, estava nas centenas de livros espalhados pelas bancas. E não são as publicações com desenhos que o menino gosta. Tímido, ele conta que tem preferência pelos livros de história e geografia. Filho do professor de matemática, Piragibi Vieira da Paixão, João Francisco parece estar acostumado a sair de Canoas para peregrinar pelo centro todos os sábados com o pai. “Passeamos pelos sebos, e também gostamos de ir aos postos de coleta de papel, onde muitas obras podem ser reaproveitadas”, conta Piragibi, orgulhoso do interesse do filho.

Para o secretário do Planejamento Municipal, Ricardo Gothe, além de incentivar a leitura, o Caminho do Livro é mais um passo no programa de revitalização do Centro de Porto Alegre. “Assim como o Caminho dos Antiquários, já estabelecido na Rua Fernando Gomes, o Caminho do Livro irá reforçar os laços com este importante bairro e incentivar o comércio da região”, destaca. O secretário de Cultura, Sergius Gonzaga, enfatiza que o objetivo é consolidar a atração, e quem sabe, tornar o passeio à Riachuelo uma tradição aos sábados, como é o Brique da Redenção, que aos domingos reune centenas de visitantes.

Os expositores também estão otimistas diante das boas vendas e a presença de muitas pessoas na inauguração do novo roteiro cultural. Para Miguel Gomes, comerciante que ocupa uma das 30 bancas dispostas no recuo das calçadas, o movimento do primeiro dia tende a crescer, pois o público irá desfrutar, também, de uma programação artística variada. “Além de encontrar obras interessantes, quem estiver pelo centro poderá participar de uma manhã inteiramente cultural”, diz.

O Caminho do Livro é um projeto aberto a livreiros, editores, creditistas e distribuidores de livros da região metropolitana, associados ou não à Câmara Riograndense do Livro. As empresas interessadas em participar devem entrar em contato com a organização pelo e-mail sonia@camaradolivro.com.br, ou pelo telefone (51) 3225-5096.

12 de setembro, 2009
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